Diário de uma viagem... a Fátima a Pé em 2 dias
Começar a andar ainda de madrugada é condição essencial para o 1º dia de viagem correr bem, por isso às 6.30 da manhã eu e a Mónica começávamos a andar, para trás tinham ficado alguns dias de alimentação mais rigorosa para perder algum peso, uma ou outra passeata, uns minutos na passadeira lá de casa e até uma voltita de bicicleta que me deixou quase ko durante um dia ou dois.
A ermida de Nossa Sra do Castelo em Coruche foi o ponto de partida de uma viagem até Fátima que demoraria no mínimo dois dias, mas que o mais normal seria demorar dois dias e meio.
Seguir em grupo ou seguir a dois é bem diferente, no meio de várias pessoas existem diferentes ritmos de andamento, e quase sempre prevalece o ritmo dos que são mais rápidos, os mais lentos fazem o esforço de se adaptar a ele. No nosso caso só os dois era mais fácil, seguíamos o nosso ritmo coordenado, quando um queria ir mais depressa íamos, mas abrandávamos logo que o outro quisesse.
A primeira etapa e principalmente os primeiros 20kms por um lado são os mais fáceis pois as pernas ainda estão a 100%, mas demoram tanto tempo a passar com rectas e mais rectas e com a paisagem a ser sempre igual, charneca, charneca, charneca…
Pelo caminho começam a surgir mais caminheiros, uns que passam por nós outros que pelo contrário ficam para trás, com a certeza que seguíamos um passo correcto, e quem ia mais veloz ou estava em condição física de fazer inveja, ou não ia muito além, e quem ficava para trás ia no seu ritmo seguro. Dois espertalhões que nos passaram, já tínhamos percorrido uns 12kms deixaram uma provocação; - hum, vocês vão a picar miudinho. Bem, e lá foram eles desaparecer com alguma rapidez da nossa vista, mas, vou falar deles mais à frente…
Chegamos à Raposa, povoação onde é hábito comer um bolito e tomar o café da manhã, e é aqui que se começam a sentir os músculos das pernas a gemer, bem como por vezes e quando o calçado não ajuda começam a surgir as primeiras bolhas. Com a calma possível lá nos sentamos, café e pastel de nata, pagar e andar, ainda estava tudo ok, atravessar a ponte e preparar para a primeira subida que faz jus ao nome, seguimos a bom ritmo
a ultrapassar e a ser ultrapassados, o próximo destino era Almeirim.
Almeirim tem a particularidade de nunca mais chegar, vamos a pensar no almoço, e em mais uma meta a atingir, mas a verdade e que mais algumas rectas que parecem não terminar, e o cansaço natural de várias horas seguidas a andar tornam a parte final da chegada bastante difícil. O último km para mim foi complicado, já a Mónica ia bem, lá chegamos, uma sopa para cada um, dividimos uma bifana, e lá fomos nós para a caminhada da parte da tarde, objectivo: viaduto da auto-estrada em Alcanhões, até já…
Como prometido volto agora a falar dos dois cromos do célebre “pica miudinho”, foi em Almeirim que nos despedimos deles, quando chegamos já eles estavam a almoçar, quando recomeçamos a andar eles ainda ficaram, soubemos depois que andaram até à ponte de Santarém, ficaram na estação, até aqui já foram sempre atrás de nós, regressaram depois a Coruche, regressaram mais dois dias para concluir a viagem, “picaram muito miudinho”, até pró ano cromos.
Para fazer o balanço, saímos de Coruche às 6.30h, almoçamos em Almeirim ás 13.15h, com 35kms percorridos.
O nosso almoço tranquilo significava que estávamos aptos para a etapa da tarde, o caminho até Alcanhões é complicado, até à nossa meta faltavam mais ou menos 12kms, mas pelo caminho ainda havia alguns obstáculos a transpor. O 1º foi uma inesperada diarreia que afectou a Mónica, duas paragens no wc ainda antes de sair da cidade atrasava nos um pouco, mas lá íamos nós com a disposição possível, eu ia relativamente bem, a Mónica fez ainda mais 3 paragens em wc improvisado no caminho até à ponte de Santarém, felizmente foram as últimas.
Passada a ponte e a estação entravamos no serpentear da estreita estrada paralela á linha de caminho de ferro, até a atravessar para não mais cruzar. O calor sempre a apertar, nesta altura já tínhamos o nosso carro de apoio a prestar nos ajuda, pelo menos a agua era nesta altura um bem essencial e se bebemos mais de 1l cada um com relativa facilidade, preciosa esta ajuda dos meus pais, o apoio até ao fim do dia foi essencial, pois carregar agua ás costas é complicado e por estas bandas local onde a comprar já não há, já houve em tempos…
Evitamos Alcanhões por uma estrada alternativa, poupamos o sacrifício de entrar nesta terra e andar, andar sem nunca mais ver o seu fim surgir, mas por esta estrada com bom piso, mas sempre a subir durante uns 2kms debaixo de 30ºc, até chegarmos à rua principal de Alcanhões a cerca de 1,5kms da meta. Por esta altura já eu tinha ganho umas belas bolhas nos calcanhares e assistido ao seu rebentamento, a Mónica continuava cheia de força. Bem, o primeiro dia estava cumprido, restava conduzir o carro até a Coruche, e amanhã será um novo dia…
O 2ºdia é sempre uma incógnita, não se sabe se a ele se chega, e muito menos como vai correr, o objectivo é chegar o mais perto possível de Fátima ou então chegar mesmo ao fim da viagem, o santuário, pior é quando não se consegue nem uma coisa nem outra e se tem de desistir, a Mónica nunca desistiu, eu já, mas sempre no fim do 1º dia.
Às 5.30h estávamos a sair de Coruche, íamos deixar o carro em Alcanhões e recomeçar, precisamente no local onde tínhamos terminado ontem…
Às 6.30h novamente lá estávamos nós a arrancar, só que agora o espírito era diferente, por um lado a certeza de ter passado a 1ª barreira, por outro as imensas dores nas pernas, costas e pés. Começamos a andar, as dores nunca desaparecem, aprendemos a conviver com elas, umas vezes com mais intensidade outras com menos, mas a verdade é que até à chegada elas não nos largarão.
No princípio do dia encontramos vários grupos de caminhantes, vamos ultrapassando quase todos, queremos chegar a Pernes, mas faltam ainda aí uns 15kms, já com esta terra à vista e com mais uma hora para andar até lá chegar, se fosse de carro demoraria 5mn. Enfim chegamos, era a hora de mais um café, e era mesmo só isso que eu queria, encostado ao balcão, de pé, eu e mais uma ou duas pessoas desesperávamos, enquanto a dona do café arrumava pachorrentamente croissants acabados de sair do forno, a vontade foi de ser mal educado e sair dali, mas esperamos, lá veio o café e lá ficaram os croissants. Sair de Pernes é vencer mais uma etapa, sempre a subir por mais uns kms, a próxima povoação que iríamos encontrar era a Louriçeira, terra sempre lembrada por ter uma descida brutal, faz nos sentir todos os músculos das pernas, e todos parecem estar a ser triturados por um comboio. Por esta altura já os meus pais nos acompanhavam novamente, uma geleira com água bem fresca veio mesmo a calhar. A Mónica segue sem reclamar, eu vou “à rasca”. Alcanena estava mesmo ali, e lá estava o nosso almoço, atravessar Alcanena é penoso, descer e subir um passeio nesta altura é como fazer 20km em estado normal, acabamos por parar para almoçar já à saída da zona industrial, voltamos para trás de carro, almoçamos no mercado municipal. Venha de lá o prato do dia para ser mais rápido, panados de frango, rápido? Bem estivemos mais de meia hora à espera para vir o denominado prato do dia, a empregada, uma ucraniana ainda ia dizendo umas piadas provavelmente secas, acho que não percebi nenhuma, mas até me estava a sentir bem de estar ali a descansar, a Mónica pelo contrário não. Depois de uma bela sopa e dos demorados panados fizemo-nos à estrada novamente, no horizonte a serra de Minde, uma inclinação demolidora, um calor devastador, agua, agua, agua; ao chegarmos lá acima foi claramente uma sensação de alívio, mas como prémio temos a descida para Minde, onde temos de travar para termos um ritmo suportável nas pernas e suportar as dores que isso provoca. Atalhamos por algumas ruas de Minde, e depois por um autentico carreiro de formigas, a subir por entre arbustos e sobre pedras e rocha, nesta altura ao mínimo descuido a paragem é o chão, as forças faltam, o calor é intenso, a água não abunda, ali não havia assistência, nem havia companhia, éramos só nós os dois, até que chegamos a “ terra firme”, Covão do Coelho, encontrávamos a assistência, ou seja a preciosa agua. Mais uma subida longa, com passagem por baixo do viaduto da A1.
Tínhamos adiantado bastante caminho ao fazermos o arriscado atalho, pois algumas pessoas que encontramos em Minde ficaram para trás. Nesta subida começaram-me a faltar as forças e tivemos que parar várias vezes para recuperar, a Mónica queixava se de uma unha, a mesma que lhe viria a cair um mês depois. Pretendíamos chegar perto de Fátima, cada vez estávamos mais sozinhos, com menos força e com mais dores, nesta altura beber muita água e ingerir algumas barritas energéticas é determinante. Na verdade a muito custo (da minha parte) lá fomos andando até começarmos a encontrar as territas situadas a 5 ou 6 kms de Fátima, andar e andar, cada vez mais devagar, e com maior dificuldade, mas agora com um novo animo, era possível chegar já hoje ao santuário. Mas, do ser possível ao chegar mesmo vai uma grande distância, por mais vezes que lá tenhamos passado, pensamos que Fátima é já ali à frente, mas não é, é sempre mais além. A ultima placa indica que ainda faltam 3kms até ao nosso objectivo.
A estrada até Fátima nestes últimos kms é péssima, só comparada com o carreiro do atalho de Minde, não temos companhia de ninguém, só da nossa assistência, mas eles próprios já saturados com a viagem, e mais estão de carro. Finalmente a rotunda sul, da entrada de Fátima mas até lá chegar havia que ultrapassar a estrada em obras e todas as maleitas que nos acompanhavam, a Mónica ia puxando por mim, eu de vez enquanto lá me encostava aqui e ali, nunca tinha conseguido fazer a viagem em dois dias, tinha sido sempre em dois e meio, era hoje, tinha de ser, estávamos tão perto e tão longe. Chegamos à rotunda aí senti que era capaz, os ares de Fátima e da proximidade do fim dão nos a força extra que faltava, é o sprint final, vou mesmo mal, a Mónica só se lamenta da unha, e lá estamos nós em Fátima, no Santuário, 92kms depois, e mais de 24horas a andar lá foi cumprida mais uma promessa.


Agora é só conduzir o carro até casa, com os meus pais e a minha esposa Mónica, a eles agradeço a paciência, a ela claro a força de me motivar e a companhia, em certos períodos quase que me levou ao colo, no próximo ano faço uma dieta ainda mais rigorosa.
Esta é uma viagem difícil, pela distância, pelo tempo, ou pela nossa disposição, desgasta-nos muito fisicamente, mas não menos psicologicamente.
Até pró ano…